O Brasil registrou, em março de 2026, o maior índice de inadimplência de sua história. De acordo com dados do indicador de inadimplência do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 74,31 milhões de brasileiros estavam com contas em atraso no período, número que representa 44,42% da população adulta. O cenário preocupa o setor produtivo por impactar diretamente o consumo das famílias, pressionar o varejo e limitar o crescimento da economia.
Diante desse contexto, a CNDL avalia com cautela o lançamento do programa Desenrola 2.0 e defende que a iniciativa venha acompanhada de soluções estruturais capazes de enfrentar as causas do endividamento crônico da população.
Segundo a entidade, um dos principais alertas está relacionado à reincidência da inadimplência. Dados do SPC Brasil mostram que mais de 85% dos consumidores negativados em março já haviam passado pelo cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses.
Para a CNDL, o dado evidencia que grande parte das famílias brasileiras vive em uma condição financeira extremamente frágil, em que qualquer imprevisto pode comprometer totalmente o orçamento doméstico.
Mesmo quando conseguem renegociar dívidas e limpar o nome, muitos consumidores acabam retornando rapidamente à inadimplência. A entidade avalia que a inflação elevada sobre itens básicos, a perda do poder de compra e a ausência de uma reserva financeira dificultam o cumprimento dos novos acordos firmados. Sem aumento consistente da renda real e sem políticas amplas de educação financeira, o país permanece preso em um ciclo contínuo de endividamento.
Outro ponto levantado pela CNDL envolve a possibilidade de utilização do FGTS como garantia ou meio de pagamento no Desenrola 2.0. A entidade afirma ver a proposta com cautela, destacando que o fundo representa uma das principais garantias do trabalhador em casos de demissão.
Para a confederação, utilizar esse recurso para quitar dívidas de consumo, sem mudanças estruturais no equilíbrio financeiro das famílias, pode gerar insegurança futura e ampliar a vulnerabilidade do cidadão em momentos de desemprego.
A CNDL reconhece que substituir dívidas com juros elevados, como cartão de crédito e cheque especial, por linhas mais acessíveis é um avanço importante. No entanto, avalia que o problema econômico brasileiro possui raízes mais profundas. Segundo a entidade, enquanto o país mantiver desequilíbrio fiscal e gastos públicos acima da arrecadação, haverá pressão contínua sobre a inflação e os juros, reduzindo os efeitos positivos de programas de renegociação.
Além dos fatores econômicos tradicionais, a confederação chama atenção para mudanças recentes no comportamento de consumo da população. O crescimento das apostas esportivas e dos cassinos online, por exemplo, é apontado como um fator que vem comprometendo parcelas significativas da renda familiar. Paralelamente, a alta no custo de produtos essenciais e a influência das redes sociais estimulam um consumo imediato e aspiracional, impulsionado pela busca de pertencimento e aparência digital.
De acordo com a CNDL, o bombardeio constante de publicidade e conteúdos de influenciadores incentiva gastos supérfluos e dificulta a construção de hábitos financeiros saudáveis. Esse cenário, associado ao imediatismo e ao fácil acesso ao crédito, torna ainda mais desafiador o combate à inadimplência.
Para a entidade, programas de renegociação são importantes, mas tendem a representar apenas um alívio temporário caso não sejam acompanhados de responsabilidade fiscal, estabilidade econômica e investimentos sólidos em educação financeira. A CNDL defende que o Brasil avance em medidas capazes de reduzir burocracias, fortalecer a confiança econômica e criar condições para que a população recupere o poder de compra de forma sustentável.
A confederação também ressalta que o enfrentamento do endividamento das famílias deve ir além de ações emergenciais ou pontuais. Na avaliação da entidade, o país precisa de políticas duradouras que promovam dignidade financeira e estabilidade para consumidores e empresas.
